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Sunday, May 31, 2020

Loja: Ponto das Artes, Porto

Há já muito tempo que não entrava numa loja onde me sentisse tão entusiasmada! Talvez por ter sido a primeira loja em que entrei depois da época de confinamento, senti mais entusiasmo do que aquele que senti ao entrar na loja Prada em Nova Iorque. Acreditem, é verdade! Até porque nunca me entusiasmei muito com moda. E já tinha entrado na Versace em Roma. Gosto muito da Medusa!

Bom, eu tinha três hipóteses: 
  • desistia das aguarelas e arranjava outro entretenimento - crochet, por exemplo;
  • continuava com o material que tenho e tentava fazer melhor - missão impossível;
  • fazia um upgrade ao material, enchia o peito de coragem e tentava fazer melhor.
Optei pela terceira hipótese, obviamente. Ainda é muito cedo para me declarar a pior pintora de aguarelas do mundo e sou muito nova para fazer crochet. É coisa de velha, não é? E estabeleci um limite, não por questões económicas, mas por questões de logística: decidi que não posso acumular muitos materiais em casa, não só por falta de espaço, mas pelo desperdício que é, porque depois estorvam, ninguém os quer e vão para o lixo. Assim, estabeleci o limite de €100! Não é por ano, mas também não é para a vida toda! A regra é esta: só é permitido ultrapassar os €100 se e só se  - eu preciso de matemática, lógica e muita filosofia para estabelecer regras! - gastar os materiais que tenho.  

Encontrei a loja Ponto das Artes por acaso e nunca, mas nunca me tinha apercebido da sua existência. Realmente, só vemos o que estamos preparados para ver, pois passei na frente desta loja inúmeras vezes e nunca tinha dado conta. Andava a pesquisar as borrachas-pão e vi o anúncio da loja. Embora fechada por causa do confinamento, aceitava encomendas online, mas como eu não conhecia os materiais, queria vê-los e fazer perguntas antes de os comprar. Pesquisei exaustivamente todo o site, vi todos os materiais relacionados com aguarelas e fiz a minha lista. Como é uma loja da especialidade, não tem materiais 'fracos', isto é, para além dos profissionais, tem os produtos adequados para os estudantes de artes. Foi por esta gama que optei depois de muitos cálculos e análises macroeconómicas da minha equipa, que me propôs a seguinte equação praticamente merecedora do Prémio Nobel da Economia: 

qualidade x preço <=> jeito da artista

Precisava urgentemente de pincéis. Seguindo a lista dos pincéis recomendados no Magia da Cor (aqui), tentei encontrar uma forma de adquirir pincéis espatulados, redondos e de ponta fina de vários tamanhos, tendo em conta a minha equação. Optei pelos conjuntos de Pincéis para Aguarela Campus. São pincéis de cerdas não naturais, em cabos de madeira longos lacados. São vendidos em conjuntos de 3 pincéis numa variedade de quatro tamanhos: S, M, L e XL e cada conjunto traz um espatulado, um redondo e um ponta fina. Concluindo, isto dá: 
  • 4 pincéis espatulados, tamanhos 4 (S), 8 (M), 12 (L) e 20 (XL); 
  • 4 pincéis redondos, tamanhos 8 (S), 12 (M), 16 (L) e 20 (XL);
  • 4 pincéis de ponta fina, tamanhos 2 (S), 4 (M), 8 (L) e 10 (XL).
Feitas as contas, o total destes 12 pincéis era de €15.91. 

Seguiram-se as tintas. Decididamente, as minhas não eram nada boas, tendo em conta os resultados nos vídeos que fui vendo. E se lidar com a imprevisibilidade da aguarela já é difícil, lidar com a má qualidade da aguarela é ainda mais difícil. Pondo de lado as maravilhosas marcas profissionais disponíveis nesta loja, reparei que a Derwent, que apenas conhecia do meu lápis de grafite, tem a linha Derwent Academy, mais em conta pois, como o próprio nome indica, é para estudantes de arte. Passou a ser a minha marca para tudo neste momento. Escolhi:
  • a Caixa de Pastilhas Aguarela Derwent Academy de 12 cores: a paleta vem numa caixa metálica cuja parte superior tem 3 secções e traz ainda um pincel fino; 
  • o Conjunto Aguarela Derwent Academy de 12 tubos de 12ml: a paleta vem numa caixa de plástico, sendo útil um godé com tampa, daqueles com uma coluna para colocar a tinta e outro para diluir na água.
As cores da caixa são amarelo ácido, laranja, vermelho, azul escuro, azul, verde escuro, verde claro, ocre amarelo, terracota, umber queimado, preto e branco. Esta paleta estava marcada por €8.15. Inacreditavelmente, a paleta de tubos estava mais barata, €7.85. Vou guardar os tubos para outras aventuras e já abri o estojo das pastilhas. Eis o resultado: 

[imagem]  

Usei o pincel espatulado n.º 4 e aproveitei para experimentar todos os outros. À medida que os experimentava, percebi que os XL serão apenas úteis se fizer pinturas grandes e vai fazer-me falta um pincel fino. O da Derwent, que vem no estojo das pastilhas, é perfeito, mas talvez um pincel mais fino ainda, para pequenos detalhes, não seja má ideia, assim como um leque. À primeira vista pode parecer que não faz falta nenhuma, mas se pensar num modo de pintar árvores, talvez seja útil. 

Por fim, os acessórios: a máscara e a borracha. Optei pela Máscara Líquida Sennelier e queria o frasco com aplicador, mas como não estava disponível, tive de optar pelo de 75ml por €7.04. Quanto à borracha, optei pela Borracha Pão da Faber-Castell por €1.03, não porque goste muito desta marca, devo ser das poucas pessoas que não a prefere às outras do género, mas porque tem a vantagem de vir numa prática caixinha para guardar. A Borracha Miolo de Pão da Derwent custa €2.28 e a da Inart €0.80. Como duram bastante tempo, optei pela que me pareceu mais prática para guardar. 

Nota: Tinha na minha wishlist da Fnac a Borracha Pão da Faber-Castell. Não está disponível na loja, é vendida por um agente, por €4.90. Antes de comprar qualquer coisa, convém sempre pesquisar!  

Já cortei uma tira de meio centímetro e guardei a restante, embrulhada num plástico extra, dentro da caixa para preservar. É das coisas mais estranhas que já experimentei no mundo das artes: basta ir amassando e moldando da forma que mais jeito der para apagar, e guarda-se também embrulhada num plástico para não secar. As linhas a lápis desaparecem suavemente e o papel mantém-se intacto. 

Tive um grande problema quando fui ver os expositores com material para desenho: bastou-me ver a Derwent para ficar com vontade de comprar tudo e mais alguma coisa! Tentei concentrar-me no que era verde (a Derwent é azul, a Derwent Academy é verde), mas a tentação era muita! Demonstrei grande controlo ao apenas escolher um conjunto de lápis de carvão para fazer experiências e esfuminhos. Finalizei as compras com um Conjunto Lápis Carvão Derwent (blister com 4 lápis de carvão claro, médio, escuro e branco) por €4.60 e uma embalagem de 3 diferentes tamanhos de Esfuminhos da Talens por €1.04. A assistente da loja respondeu a todas as minhas perguntas e foi buscar o que eu não encontrei com rapidez: foi a rainha da eficiência. Quando vi a conta, percebi que fazem desconto em todos os artigos, ou seja, em vez dos €39.98 previstos, paguei €29.27! Guardei as compras no meu saco de pano e voltei para casa de máscara, por isso ninguém reparou no meu mega sorriso!

Nota da contabilidade: Nestas compras, gastei €29.27! Total de €00.00!   

AVISO À TRIPULAÇÃO

Vou suspender os meus relatos artísticos por três meses. Preciso de tempo para terminar a formação de teatro e gosto de desligar-me do mundo nos meses quentes. Infelizmente, não vou poder ir para nenhuma ilha, a não ser através dos livros do Lawrence Durell que gosto de ler à sombra de uma árvore em Anafiótika, enquanto ouço o Mia Varka Gia Na Pas Apenadi do Giannis Parios. Durante a pandemia, restam-nos os livros!

Friday, May 01, 2020

'O Caminho Não Seguido' e 'Os Contornos do Rosto Dele'

Robert Frost escreveu dois poemas que todos devíamos conhecer: o primeiro é 'Stopping by Woods on a Snowy Evening', já referido no final da publicação 'Cores de Água' 3/20, e o segundo é 'The Road Not Taken' (ouvir aqui). Nos dois poemas, o segredo reside nos três últimos versos que se aplicam a tudo - ou a quase tudo - na vida!

Para pintar não é preciso saber desenhar, ou saber desenhar muito bem; a identidade de cada artista está na sua criatividade e na forma como transforma a sua ideia numa obra de arte - sempre dentro das suas limitações. Se olharmos para uma pintura de Wassily Kandinsky (1866-1944) ou de Paul Klee (1879-1940) e ficarmos com a ideia de que conseguíamos fazer igual, estamos a estrangular o nosso artista interior! Se olharmos para as obras de Kandinsky ou Klee e nos sentirmos impelidos a fazer algo diferente - o que é bem mais difícil, senão impossível - teremos talvez uma hipótese! 

Kandinsky, Composição VII (1913), Galeria Tretyakov, Moscovo
Klee, Máquina Chilreante (1922), Museu de Arte Moderna, Nova Iorque 

Então, o que se segue? Por onde começar? Pelo desenho! O bom e velho desenho! Ingrés (1780-1867) terá dito que o desenho é a 'probabilidade da arte'; sem  desenho não há pintura, porque o desenho não é apenas o contorno, é a expressão, a forma, o modelo - o primeiro passo para a pintura. A verdade é que não importa se sabemos desenhar ou não, o que importa é encontrar o nosso estilo de desenho e, para isso, temos de começar pelo início!

Plínio, o Antigo, Naturalis Histotiae, 35.151

Por volta de 650 a.C., em Sicyon - pequena vila do Peloponeso a 20 km de Corinto - vivia o famoso oleiro Butades e a sua filha, Kora. Ela era muito bonita e tinha muitos pretendentes que visitavam  a oficina, a pretexto de verem os trabalhos de Butades, mas na verdade iam com a esperança de verem Kora, nem que fosse por breves segundos. Butades empregou um jovem de Corinto como aprendiz. Ele tornou-se bastante querido do oleiro e não demorou muito para que ele e Kora se apaixonassem, mas rapidamente chegou o dia em que ele estava pronto para voltar à sua cidade e abrir a sua própria oficina. Antes de partir, convidou Kora para um breve passeio em jeito de despedida.
Caminharam lentamente até ao templo, junto do qual se sentaram. Kora admirava-o atentamente, com medo de se esquecer do seu rosto assim que ele partisse. 'Porque é que esquecemos os rosto daqueles que mais amamos quando estes se ausentam?', perguntou a si mesma. O sol parecia caminhar mais rápido do que o habitual, projectando a sombra do rapaz na parede ao lado. Ele moveu a cabeça e Kora viu o seu perfil na parede: 'Não te movas!', pediu. Agarrou num fragmento de cerâmica de um vaso que alguém ali tinha deixado cair, e desenhou os contornos do rosto dele.

Jean Baptiste Regnault, A Origem da Pintura (1785), Musée de l'Histoire de France, Paris

Depois de um mês a experimentar aguarelas, percebi que o próximo passo era aprender - ou reaprender - a desenhar. Este foi o caminho que não segui quando resolvi dedicar-me às aguarelas. Vou dividi-lo em duas partes: 'O Caminho não Seguido', para os primeiros passos no desenho e 'Os Contornos do Rosto Dele' para os desenhos de objectos. 

Sunday, April 26, 2020

'Cores de Água' que Imprimem Causas 8/20

E eis que chegamos ao fim de mais um mês de aguarelamentos infrutíferos! Durante a semana fiz um périplo pelo YouTube e pelo Instagram, à procura de inspiração, e eis que ela me surgiu quando eu menos esperava! Mas vamos por partes. O canal Magia da Cor tem umas 'aulas' que eu pretendo seguir, mas o que me apetecia mesmo era descobrir se tinha capacidade para fazer as minhas próprias pinturas, a partir dos meus desenhos, traços meus, para não copiar os trabalhos dos outros. Precisava de um balanço e foi exatamente isso que eu fiz! Peguem numa almofada extra, sirvam um café ou um chá, talvez um copo de... O quê? Se vai ser chato? Claro que vai! Não querem...? Mudem de blogue!

Material:      
  • o bloco de desenho Canson Imagine 200g A5 tem servido perfeitamente para as primeiras experiências; tenho usado os dois lados e as folhas ficam um pouco retorcidas, mas paciência!
  • a caixa de 12 aguarelas Giotto com pincel sintético também foram suficientes até agora, embora as pastilhas mais escuras me causem alguns problemas; não consigo que se espalhem de forma uniforme, mas pode ser simples falta de jeito!
  • dos 3 pincéis escolares Giotto (números 3, 4 e 5) são perfeitamente dispensáveis até porque, como as cerdas ficaram de tal forma 'despenteadas', foi impossível usá-los uma segunda vez!
  • não listei, mas tinha comprado um pincel-água (pincel com reservatório) de 8mm por €2.50 numa loja chinesa, uma vez que o material que tinha comprado era, afinal, feito na China; já o experimentei, para ver como funcionava, mas ao apertar o reservatório de água, esta sai por todo o lado, menos pelas cerdas!
  • godé é muito útil e indispensável, por isso preciso de um maior; já referi que para aproveitar as tintas será mais adequado um godé com tampa, no entanto, por agora, eu não pinto todos os dias e não sei como ficará a tinta de uma semana para a outra; 
  • a fita de papel é um pouco forte, tenho de a colar e puxar na mesa de trabalho várias vezes; se a fita ficar muito tempo no papel, pode rasgar o mesmo ao ser retirada; convém também ter cuidado com o tempo quente, pois a cola pode derreter e passar para o papel, deixando-o pegajoso e inutilizado;
  • toalha, recipientes para a água, muita água e... material de desenho! O desenho é um assunto à parte! Por agora importam os pincéis, depois as pastilhas de aguarela e por fim o papel, pois não podemos pintar sem os três!    
PINCÉIS

O primeiro problema que encontrei com os pincéis foi o nome deles. Reparei que os nomes não são iguais em português pt e br e cada pessoa lhes dá um nome diferente, tentando caracterizá-lo pela forma. Os pincéis usados nas aguarelas são o espatulado (pt) ou chanfrado (br), o redondo, o angular ou biselado, o leque, o língua de gato e o de ponta fina ou extra fina. Claro que, cada um, varia em tamanho. 

  
Tanta variedade de pincéis implica descobrir para que servem. A solução está em ver como são usados e experimentar cada um para entender os efeitos que fazem. Já descobri que o tamanho das cerdas - longas no caso dos pincéis para aguarelas - é por si só um desafio, pois se o pincel estiver bem embebido, dá para preencher uma grande área de papel, o que também é problemático quando a área a preencher é pequena e as cerdas puxam muita água. Por esta razão - pela fluidez da água - os pincéis de aguarelas são macios, sendo os ideais os de cerdas naturais. Embora me pareça que haja bons pincéis sintéticos, as marcas mais reconhecidas usam pelo de marta ou de esquilo. Confesso que me incomoda saber que pode andar por aí uma marta ou um esquilo com pelo cortado para eu fazer umas pinturas, por isso vou continuar a usar os sintéticos.   

O facto de preferir pincéis sintéticos não significa que não deva cuidar deles, muito menos deixá-los na água por tempo indeterminado, pois as cerdas ficam dobradas. Já criei o hábito de os deixar pousados na toalha. Há alguns produtos e acessórios para lavar os pincéis, mas uma boa esfregadela com detergente líquido da louça resolve o assunto. Existem porta pincéis e estojos para os guardar, mas deixá-los num copo com as cerdas para cima é mais prático. 

O que eu não sabia: Os pincéis naturais, depois de lavados e secos, ficam descabelados - os sintéticos estão sempre em forma! No vídeo sobre pincéis no canal Magia da Cor (ver aqui) é recomendado que se use cola em stick para manter as cerdas coladas e protegidas, substituindo assim a goma que trazem quando os compramos. A cola usada é a 'Pritt original', mas creio que uma cola em barra para papel resulte da mesma forma. Antes de usar os pincéis, basta lavá-los com água. Esta recomendação é indicada principalmente para os pincéis mais finos, para evitar que as cerdas abram. 

Que pincéis devo ter? É a pergunta para 1.000.000Δρ - quase €3.000, não é muito, mas dá para muitos pincéis! No mesmo vídeo, é recomendado consoante a quantidade de pincéis que se pretende adquirir: três, cinco ou sete pincéis. Os primeiros três são: espatulado 22, espatulado 10 e redondo 4, com ponta fina para substituir um de ponta fina; se preferir cinco, acrescentar: redondo 11 e espatulado (não indicou o número); se preferir sete, acrescentar: língua de gato 7 e extra fino (não indicou o número); por fim, recomenda um leque.


Há no mercado uma variedade de pincéis e, mesmo entre as marcas direcionadas para amadores, é possível encontrar bons materiais. Pesquisei numa loja da especialidade e descobri que consigo comprar quatro finos, quatro redondos e quatro espatulados (total de doze pincéis) por €15. Estou só à espera que a primeira fase de desconfinamento comece para poder voltar a uma certa normalidade e fazer compras em loja! [sobre a loja e o que comprei, ver aqui]

No périplo que fiz no Instagram, encontrei a  (ver na lista dos links) - uma das minhas preferidas - e vi que ela recebeu um pincel-água da Faber Castel. Tinha visto que estava disponível na Fnac e encomendei um por €6. Não sei exatamente que tamanho será, mas vamos ver!

SANTORINI MINIMALISTA  

O YouTube e o Instagram servem para inspirar, descobrir e aprender, mas para inspiração mesmo, não há melhor do que o bom velho amigo Pinterest. O meu problema com esta rede de partilha é que nem sempre consigo localizar o autor da imagem, mas como fonte de inspiração é do melhor que há.

Não desenho há mesmo muito tempo. Tenho um bloco de desenho Canson XL Croquis 90g A4 tão antigo que até a capa já mudou. Mas o bloco - assim como o lápis 7B da Faber Castell - estão em perfeitas condições e os anos pararam por mim, mas não por eles! Acho que está na altura de lhes dar utilidade. Fiz então um esboço simples, testei com lápis de cor, passei o desenho para um papel vegetal e transferi para o verso da última folha usada. Chamei-lhe 'Santorini Minimalista'. A anos-luz de estar próximo do que imaginei, consegui sobretudo divertir-me ao fazê-lo - foi o mais importante.

Sunday, April 19, 2020

'Cores de Água' que Imprimem Causas 7/20

Depois de uns dias a olhar para o resultado do Staircase in Tokyo, devo dizer que a vontade de aprender a pintar aguarelas estava a ir nas fortes correntes do rio Douro. Com o ânimo ainda um pouco abaixo de zero, preparei a mesa, os pincéis e... mãos à obra! 

Até agora tenho usado o pincel sintético do estojo de pintura da Giotto, mas da última vez que usei as aguarelas, deixei os três pincéis naturais da mesma marca na água, por causa da goma que tinham no pelo. Quando os lavei para tirar toda a goma, pareceu-me impossível usá-los pois os pincéis secaram e ficaram completamente despenteados! Em vez de 'Giotto' (de Giotto di Bondone, pintor italiano) podiam ser 'Einstein'! Separei o pincel nº 3 para usar nas áreas mais pequenas do desenho, embora esteja desconfiada se o seu estado despenteado-efusivo vá servir para alguma coisa!*

Mentalmente, pelas mesmas razões explicadas na publicação anterior, ordenei as cores e comecei as misturas. Desta vez, sem qualquer expectativa! Como não tenho máscara para aguarela, cortei um pouco de fita de pintura para colar na lua na terceira 'janela' e na sombra da lua no fundo da piscina (8). Não vou usar cores próximas para poder sobrepor, por isso decidi experimentar com fita a ver se resultava.

Lá fui, usando a mesma técnica que usei na 'causa' anterior: mistura, mistura, experimenta, está mal, mistura, experimenta, está bom e pinta! Ignorei dois pormenores do desenho original para reduzir aos espaços pequenos e:
  • pintei do (1) ao (7) e esperei que secasse para tirar a fita da lua, uma vez que ia acentuar a mistura (3) para fazer a (8) e já estava sem espaços no godé;
  • só depois de pintar o (5), (6) e (7) é que percebi que podia ter usado a técnica de três camadas do mesmo tom: primeiro o (5), depois escurecia um pouco para o (6) e fazia o mesmo para o (7), mas pintei como se fossem três partes diferentes.
Seria interessante repetir o desenho para ver se, usando outras técnicas, conseguia melhores resultados. Hum... De momento, não estou com vontade de me torturar a mim mesma! Acho que é um bom exercício para fazer mais tarde e com outro desenho. Estes são difíceis de reproduzir! Retirei, então, a fita e resultou! Fiquei com os espaços limpinhos para pintar num outro tom! O que não quer dizer que tenha feito um bom trabalho...

Por fim, usei o pincel descabelado para a pequena área (10) por cima da (5) e (1). Assim que apanhou tinta, o pincel deixou o seu ar descabelado e portou-se à altura. Reparei que é muito mais suave do que o sintético, ao ponto de ser necessário uma mão mais 'leve' para o usar. Acho que percebi a diferença entre os pincéis sintéticos e os naturais, mas não pude deixar de pensar que estava a usar pelo de pónei. No entanto, escusava de o usar, pois o pincel sintético dava perfeitamente conta do recado!

Finalmente, mais uma 'causa' concluída! Retirei toda a fita - antes de a usar, tenho mesmo de lhe retirar um pouco de cola; provavelmente foi por estar há alguns dias no papel, arrancou-me um pouco da superfície do mesmo tanto em cima como em baixo - e vi o resultado dos dois desenhos.



Desta vez não sobraram tintas para uma experiência. Ou foi sorte, ou aprendi a calcular exatamente a quantidade de tinta que preciso! Será que aprendi? Nááá! Foi mero acaso!

Resta-me agradecer à Charlotte Taylor por me ter deixado usar os seus desenhos e pedir-lhe desculpa por os ter assassinado! Por falar em assassinato, e se eu fosse para Rhodes resolver um crime? [aqui]

NOTAS:
* Há uma técnica para 'pentear' os pincéis 'Einstein' que vim, mais tarde, a descobrir. Ver aqui. 

Sunday, April 12, 2020

'Cores de Água' que Imprimem Causas 6/20

Decidi deixar as tentativas de variação de cores e explorar outro lado: a pintura ou preenchimento de áreas com uma só cor, de modo a criar estruturas. Decidi começar pelas obras da Charlotte Taylor (conta do Instagram aqui) que está ciente do que eu vou fazer. Espero que não desmaie se vir o resultado final.

Charlotte Taylor, Staircase in Tokyo e Morning Pool

Escolhi estas duas para começar, uma vez que só preciso de uma cor para cada espaço. Como é que eu pensei em 'aguarelar' isto:
  • dividir uma folha em duas áreas com a fita de pintura;
  • passar os desenhos para o papel com traço leve, pois ainda não comprei a borracha pão;
  • listar as cores que preciso - quero preencher tudo, portanto vou tentar 'sujar' um branco para as zonas mais claras, tudo será preenchido; 
  • organizar a ordem da pintura - do mais claro para o mais escuro.
E cá vamos nós! Resolvi poupar no papel - desde a experiência 1 que estou com baixas expectativas quanto à minha carreira como aguarelista - portanto dividi uma folha Canson Imagine 200g A5 a meio com a fita de pintura e passei o desenho a lápis.* Estou a usar um Faber Castell 9000 7B e o risco é muito escuro. No canal Magia da Cor é recomendado um HB ou um 2B. Já acrescentei no meu carrinho de compras, mas como ainda não comprei, trabalho com o 7B que é ótimo para fazer borradas! Eu bem tentei um traço leve, mas ficou bastante escuro. Ainda tinha uma borracha Staedtler Rasoplast novinha e usei para passar por cima do desenho: ficou preta! 

Escusado será dizer que o segundo desenho foi mais difícil de passar, pois tem bastantes traços curvos, mas já lá vamos!

Staircase in Tokyo parece simples, mas está longe de o ser. A profundidade e os ângulos são dados apenas pela cor e eu ainda não testei pintar em profundidade! Depois do desastre da experiência 1 - sim, eu já vou parar de referir o pior desastre das minhas 'causas' - pior não pode sair, por isso prendi o desenho, numerei as cores mentalmente, usei o verso da folha das experiências para as testar e lá fui eu! Já sabia que não ia conseguir tons idênticos ao original, ou a este original, que segui pelo telemóvel e não por uma impressão em papel, uma vez que a reprografia está fechada dado o estado de emergência em que vivemos. Nunca me passou pela cabeça, de repente, ver a minha vida de pernas para o ar por causa de um vírus que provoca infeções respiratórias graves. Quão frágeis somos nesta bola azul suspensa no espaço?


Voltando às 'cores de água'! Fui puxando água (cinco gostas com o pincel) e o pigmento para o godé, misturando até obter o tom que mais se aproximava do original. A minha lógica foi esta: 
  • (1) 5xs água + 2xs branco + 1x preto;
  • (2) ao (1) acrescentei 2xs branco + 1x amarelo;
  • (3) ao (2) acrescentei 3xs amarelo;
  • (4) num novo espaço do godé: 5xs água + 1x vermelho; 
  • (5) ao (4) acrescentei 2xs vermelho;  
  • sim, eu sei que isto é chato como tudo, mas o blogue é meu e eu é que decido o que me apetece escrever, por isso vou continuar;
  • (6) num novo espaço, 5xs água + 1x verde claro;
  • (7) ao (6) acrescentei 2xs verde claro;
  • (8) ao (7) acrescentei 2xs verde escuro;
  • (9) ao (8) acrescentei 2 xs verde escuro;
  • (10) no último espaço do godé, 5xs água + 2xs preto. 
No fim, tinha todo o desenho preenchido, embora o (1) e o (2) sejam praticamente impercetíveis, garanto que se nota qualquer coisa no papel! O (3) e o (5) ficaram muito espessos: o (3) achei que estava muito claro e não estava, tendo de voltar a misturando até obter o tom final; o (5) reparei que estava muito espesso pois é resultado da mistura do (4). Nunca, em momento algum, me lembrei de diluir com água! Por um lado ia clarear mais do que queria, por outro ia diluir, mas o facto de ter ficado espesso permitiu que estes tons escuros tenham saído melhor, basta comparar com o (9) e o (10). 

Resultado final? Não desmaiem, ok? Podia ser pior!


NOTAS:
* Há um vídeo no canal Magia da Cor sobre como passar um desenho, mas nesta altura eu ainda não o tinha visto. Clicar aqui para ver as minhas notas sobre esse vídeo.

Sunday, April 05, 2020

'Cores de Água' que Imprimem Causas 5/20

Mais uma semana, mais uma borrada! Desculpem, aguada! Andei a semana toda a varrer o que resta da minha vontade de continuar e percebi que tenho mais vontade do que jeito, por isso resta-me continuar. Em frente! Em frente como o D. Quixote contra os moinhos de vento!

No verso da terceira tentativa da variação de cores resolvi variar pela última vez - esta é a última variação que faço, já estou cansada de variar e não conseguir bons resultados. Como não sabia bem o que variar, risquei círculos, apaguei, risquei quadrados, apaguei, risquei retângulos, apaguei até que resolvi fazer aqueles triângulos que a Mika mostrou no vídeo que já partilhei (2/20). A versão oficial é que eu quis fazer uns triângulos diferentes para não estar a copiar as ideias dos outros, mas a verdade é que eu devo ter bloqueado de tão farta que estava de traçar e apagar círculos, quadrados e retângulos, que não consegui fazer os triângulos sobrepostos; assim fiz triângulos dentro de triângulos e o objetivo era pintar o primeiro mais claro e o segundo mais escuro. O resultado do desastre, digo, trabalho foi este:


Sobrou um pouco de tinta. Inspirada por uns vídeos que vi no Instagram - talvez o motivo do meu desânimo, porque há pessoas que fazem trabalhos tão lindos e eu ainda ando aqui às voltas com as variações - resolvi pela primeira vez, repito, pela primeira vez, pintar sem pensar em nada, apenas seguir o que a minha intuição dizia para fazer.

Arranquei nova folha ao bloco - pensei, confesso que pensei se ia desperdiçar assim uma preciosa folha, mas como tenho planos de grandes pinturas para a próxima semana, vou precisar de uma folha para teste, por isso vou aproveitar o verso desta para 'rascunho' - fiz um retângulo com a fita de pinturajá comprei uma, por €1.40, numa loja aqui da minha rua que vende produtos para jardinagem e bricolage - peguei no pincel e lá deixei a minha intuição fluir. Conclusão: a minha intuição anda muito mal! Não sei o que é que lhe deu, só sei que inspirada pelos vídeos que vi de céus estrelados e paisagens magníficas, saiu uma borrada a que chamei experiência 1. É preciso ter coragem para publicar maus trabalhos, e eu não tenho! Foi a minha primeira pintura sem desenho de fundo e o desastre foi tão grande que vou terminar por hoje!